Nessa temporada, tempo de temporal,
Trovejante, trovoada, sou trova.
Minha e dos outros
Como no sotaque do sul.
Troco as notas, de dó a dó, que caem.
Notas desvalorizadas, de um trovador, tosco.
Na minha trouxa levo meu fardo e minha farda.
Uma muda de roupa, papel e uma caneta falante.
Essa temporada, me fez trova.
Pesou meu fardo, e meu sotaque estranho.
Agora fadado a falar por notas valiosas
Que me fogem dos dedos... nenhum dó... que dó!
Minha farda não é verde, não é azul...
É da cor do meu humor, da cor do meu cabelo...
Que muda conforme o humor,
Conforme o sotaque, que não é do sul.
Só tenho a caneta que fala por mim.
Mas só no papel, que não guarda segredos.
Não tenho ninguém, pra nenhuma conversa.
Só minha roupa. Mas é muda e nada me diz.
Ouço uma trovoada.
Será Deus tropeçando em seu traje branco?
Será o tempo em seu sotaque trovejante
Trovando com a minha cara?
O peso do meu fardo se disfarça
Quando eu visto a minha farda
Sobre a muda de roupa sem sotaque
Da cor do meu cabelo e da cara mal-humorada.
Eu mesmo não falo nada
Sou trovador, solitário tocador de palavras.
Trocando o mal-humor em si
Por dó de outras toadas.
Tenho um papel aqui nesse mundo
Um papel, branco, bem a minha cara.
Onde vou deixar escrito, no meu sotaque,
O que eu fiz com a farda que me foi dada:
“Vesti meu fardo por cima dela,
Pintei da cor que o humor estava,
E em meio a trovoada do temporal
Passei sorrindo por essa temporada.”
quarta-feira, 14 de abril de 2010
terça-feira, 13 de abril de 2010
A lenda do Lobo e sua amada Noite - Allyson Alves
Era uma vez um lobo.
Caçador e por isso caçado.
De quem fugiam as mulheres.
De quem odiavam os homens.
Um lobo comum? Não, não era...
Parecia um lobo guará.
O magro e misterioso lobo guará.
Mas era mau, incomum lobo mau.
Um lobo sem matilha.
Com poucas garantias.
E um medo que não lhe cabia
Da noite que sempre vinha no fim do dia.
À noite era clara, um pouco menos que o dia.
Ela era astuta. Nem tão quente, mas nunca fria.
E o lobo temia ainda mais quando chovia.
Ele se tornava a presa, ou pelo menos se sentia.
Da noite calada, ele pouco sabia.
Ela o queria, se pudesse, devoraria.
A noite sempre ia, até que deixou saudade.
Transformou em desejo o medo e a maldade.
Ele uivava pedindo que ficasse.
Nada adiantava. Não se resolvia esse impasse.
E só se apertava o nó na garganta por esse enlace.
O mais alto dos uivos não fazia com que algo mudasse.
Alguns homens notaram e deixaram o lobo em paz
Escreveram sobre ele até alguns anos atrás.
Outros queriam o prazer de vê-lo morrer.
E assim foi, sem o pobre nem saber por que.
A floresta calou até a noite chegar
E quando se pôs a chorar fez tanto barulho
Que os homens sentiram falta do longínquo uivo
E viveram com a culpa de serem injustos.
Os que escreveram disseram que depois
A noite vestiu seu luto, e ficou negra.
E ficou fria e os ventos que por ela passavam
Uivavam pela memória do lobo que antes o fazia.
A noite passou a eternidade em silêncio
Em dias mais tristes e outros menos
Verteu lágrimas, luminosas estrelas
E quando o choro é forte, chamam de sereno.
Em homenagem ao lobo, a noite pendurou a lua no céu
A deixou acesa, hora branca, hora amarela.
E em devoção ao amor que os homens assassinaram
Todos os outros lobos, desde então, uivam religiosamente para ela.
Caçador e por isso caçado.
De quem fugiam as mulheres.
De quem odiavam os homens.
Um lobo comum? Não, não era...
Parecia um lobo guará.
O magro e misterioso lobo guará.
Mas era mau, incomum lobo mau.
Um lobo sem matilha.
Com poucas garantias.
E um medo que não lhe cabia
Da noite que sempre vinha no fim do dia.
À noite era clara, um pouco menos que o dia.
Ela era astuta. Nem tão quente, mas nunca fria.
E o lobo temia ainda mais quando chovia.
Ele se tornava a presa, ou pelo menos se sentia.
Da noite calada, ele pouco sabia.
Ela o queria, se pudesse, devoraria.
A noite sempre ia, até que deixou saudade.
Transformou em desejo o medo e a maldade.
Ele uivava pedindo que ficasse.
Nada adiantava. Não se resolvia esse impasse.
E só se apertava o nó na garganta por esse enlace.
O mais alto dos uivos não fazia com que algo mudasse.
Alguns homens notaram e deixaram o lobo em paz
Escreveram sobre ele até alguns anos atrás.
Outros queriam o prazer de vê-lo morrer.
E assim foi, sem o pobre nem saber por que.
A floresta calou até a noite chegar
E quando se pôs a chorar fez tanto barulho
Que os homens sentiram falta do longínquo uivo
E viveram com a culpa de serem injustos.
Os que escreveram disseram que depois
A noite vestiu seu luto, e ficou negra.
E ficou fria e os ventos que por ela passavam
Uivavam pela memória do lobo que antes o fazia.
A noite passou a eternidade em silêncio
Em dias mais tristes e outros menos
Verteu lágrimas, luminosas estrelas
E quando o choro é forte, chamam de sereno.
Em homenagem ao lobo, a noite pendurou a lua no céu
A deixou acesa, hora branca, hora amarela.
E em devoção ao amor que os homens assassinaram
Todos os outros lobos, desde então, uivam religiosamente para ela.
Caríssima - Allyson Alves
Nego-te meu amor, porque dele não precisas;
Nego-te o beijo, pois culparia o resto da vida;
Nego-te outro olhar, pra que estragos não causem;
Nego-te o acordo, o que é natural de mim;
Dou-te a mão, se só ela quiseres;
Dou-te atenção, sempre que precisares;
Dou-te carinho, se carente um dia ficares;
Dou-te paz, se assim desejares;
Nego-lhe o perto, pois de longe já me vês;
Nego-lhe matar, a fome do que escreves;
Nego-lhe a face, minha, que desconheces;
Nego-lhe por bem, tudo o que de mim duvidas;
Dou-te um sopro de calor, se frio sentires;
Dou-te raiva e um tremendo temor, se assim for;
Dou-te quase nada, pelo bem do que bem sabes;
Dou-te o que sempre sou: nada além de paixão;
Nego-lhe o bem de fazer tua vontade;
Nego-lhe as respostas, reais, mal disfarçadas;
Nego-lhe também, pelo vício prazeroso de negar;
Nego-lhe o bem que te enganas ao imaginar;
Dou-te coragem, mas não sei se percebes;
Dou-te verdades que não ouves ou não conheces;
Dou-te liberdade, porque sei que envaidece;
Dou-te a escolha, que não me cabe, que não me deves.
Nego-te o beijo, pois culparia o resto da vida;
Nego-te outro olhar, pra que estragos não causem;
Nego-te o acordo, o que é natural de mim;
Dou-te a mão, se só ela quiseres;
Dou-te atenção, sempre que precisares;
Dou-te carinho, se carente um dia ficares;
Dou-te paz, se assim desejares;
Nego-lhe o perto, pois de longe já me vês;
Nego-lhe matar, a fome do que escreves;
Nego-lhe a face, minha, que desconheces;
Nego-lhe por bem, tudo o que de mim duvidas;
Dou-te um sopro de calor, se frio sentires;
Dou-te raiva e um tremendo temor, se assim for;
Dou-te quase nada, pelo bem do que bem sabes;
Dou-te o que sempre sou: nada além de paixão;
Nego-lhe o bem de fazer tua vontade;
Nego-lhe as respostas, reais, mal disfarçadas;
Nego-lhe também, pelo vício prazeroso de negar;
Nego-lhe o bem que te enganas ao imaginar;
Dou-te coragem, mas não sei se percebes;
Dou-te verdades que não ouves ou não conheces;
Dou-te liberdade, porque sei que envaidece;
Dou-te a escolha, que não me cabe, que não me deves.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Ando meio nublado - Allyson Alves
O que temer?
Talvez o problema seja o medo.
Talvez esteja o medo funcionando em mim
Como bom senso, me segurando,
Me impedindo de fazer besteira...
Será que é besteira?
Uma incrível e boa besteira...
Vai ver eu tenho medo.
Tenho medo dessa nuvem carregada.
Aonde eu vou ela vai, onde eu estou ela está.
Às vezes ela chove.
Às vezes deixa escapar luz. Um sorriso.
O que seria de um homem sem medo?
Perderia a razão?
Mas a razão também se perde, mesmo quando tememos.
E o que temer?
Temer o homem? Temer a escolha?
Temer o assombro de pensar em não temer.
E como seria sem medo?
Sem a força invisível me amarrando o corpo e a boca
Enquanto a mente viaja solta, e distraída deixa
Escapolir algumas palavras?
Vai ver o medo é só da nuvem, negra e carregada.
Que quando chove, eu finjo que não molha.
E o medo que dá, se ela descobrir e resolver virar temporal...
Do jeito que está às vezes me inunda.
Eu finjo que bóio, mas a mente mergulha.
E o que temer? A chuva? O temporal?
Ou o tempo passar e o sol voltar a brilhar?
Eu durmo sem saber se amanhã vai chover.
Será que vai? Vai chover em mim?
E o que temer? Eu sou livre! Eu sou.
Livre pra andar na chuva,
Encarando a nuvem negra cara a cara, carregada, irritada,
E desejando chover, desejando me molhar.
Uma hora o sol voltará a brilhar.
Esse tempo nublado nunca dura pra sempre.
Tenho até medo dessa confusão,
Já não sei ao certo qual é a real estação.
Por bem ou por mal, espero sem medo o amanhã chegar.
Mas só de pensar no clima, olha o medo que dá!
Eu penso bastante nesse clima... O tempo anda meio incerto.
E o medo não é bem de nublar.
Amanhã vai nublar... talvez chova... será?
Talvez o problema seja o medo.
Talvez esteja o medo funcionando em mim
Como bom senso, me segurando,
Me impedindo de fazer besteira...
Será que é besteira?
Uma incrível e boa besteira...
Vai ver eu tenho medo.
Tenho medo dessa nuvem carregada.
Aonde eu vou ela vai, onde eu estou ela está.
Às vezes ela chove.
Às vezes deixa escapar luz. Um sorriso.
O que seria de um homem sem medo?
Perderia a razão?
Mas a razão também se perde, mesmo quando tememos.
E o que temer?
Temer o homem? Temer a escolha?
Temer o assombro de pensar em não temer.
E como seria sem medo?
Sem a força invisível me amarrando o corpo e a boca
Enquanto a mente viaja solta, e distraída deixa
Escapolir algumas palavras?
Vai ver o medo é só da nuvem, negra e carregada.
Que quando chove, eu finjo que não molha.
E o medo que dá, se ela descobrir e resolver virar temporal...
Do jeito que está às vezes me inunda.
Eu finjo que bóio, mas a mente mergulha.
E o que temer? A chuva? O temporal?
Ou o tempo passar e o sol voltar a brilhar?
Eu durmo sem saber se amanhã vai chover.
Será que vai? Vai chover em mim?
E o que temer? Eu sou livre! Eu sou.
Livre pra andar na chuva,
Encarando a nuvem negra cara a cara, carregada, irritada,
E desejando chover, desejando me molhar.
Uma hora o sol voltará a brilhar.
Esse tempo nublado nunca dura pra sempre.
Tenho até medo dessa confusão,
Já não sei ao certo qual é a real estação.
Por bem ou por mal, espero sem medo o amanhã chegar.
Mas só de pensar no clima, olha o medo que dá!
Eu penso bastante nesse clima... O tempo anda meio incerto.
E o medo não é bem de nublar.
Amanhã vai nublar... talvez chova... será?
Na mesa do bar - Allyson Alves
Noites especiais
São recheadas de pessoas especiais.
Vivendo momentos especiais.
Recheados de histórias especiais,
Palavras especiais,
Recheadas de segredos especiais.
Olhares especiais
Com mensagens especiais,
Em direções especiais.
As implicâncias são especiais,
Únicas, distintas e dissimuladas.
Forçadamente formadas.
Essa mesa de bar se torna especial.
Um templo da celebração de amizades especiais
Entre pessoas, que por esse momento contemplam,
Sem saber, o que é realmente especial.
A vida é especial.
São recheadas de pessoas especiais.
Vivendo momentos especiais.
Recheados de histórias especiais,
Palavras especiais,
Recheadas de segredos especiais.
Olhares especiais
Com mensagens especiais,
Em direções especiais.
As implicâncias são especiais,
Únicas, distintas e dissimuladas.
Forçadamente formadas.
Essa mesa de bar se torna especial.
Um templo da celebração de amizades especiais
Entre pessoas, que por esse momento contemplam,
Sem saber, o que é realmente especial.
A vida é especial.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Sonhar é preciso, porém, impreciso. - Allyson Alves
Tenho cá meus motivos pra pensar que algumas coisas nessa vida têm nexo, outras não fazem o menor sentido. Tive um sonho estranho em que numa feliz festa de despedida pra mim, onde todos os meus amigos estavam reunidos, uma guria que eu nunca vi pessoalmente me chega pra se despedir. Aí o sonho acabou.
Esse negócio de interpretar sonhos ainda está além da minha capacidade de compreensão. Que festa de despedida? Por qual motivo? E por que uma pessoa que eu só conheço virtualmente me apareceu? O que ela representava? Andei por aí perguntando, e até que as opiniões acabaram se cruzando em determinados aspectos. Mas não se fez menos intrigante, nem menos incômodo e preocupante.
Sinceramente eu prefiro sonhar acordado em determinados momentos. Pelo menos quando sonho acordado, tenho a impressão de que sou eu que escolho e encaminho o sonho. Mas talvez seja só impressão, porque às vezes não encaminho e nem escolho coisa nenhuma.
Adoro sonhos. Adoro sonhar, seja como for, é sempre interessante, até mesmo quando deixa uma incógnita na cabeça, uma interrogação insistente. Nesse dia eu tentei retomar o sonho, pra ver se ele continuava de onde parou. Não consegui. Eu creio que é possível, difícil, mas possível. Já sonhei por três dias seguidos a mesma história que parecia estar dividida em três capítulos, sonhava um capítulo por dia.
Sonhos às vezes me assombram, às vezes me acalmam, às vezes me revelam coisas. Como o dia que eu penei pra tocar a introdução da música “Drão” do Gilberto Gil, da forma como o próprio Gil faz, e não consegui. Ao dormir, sonhei com a disposição das notas pelo braço do violão e como eu poderia tocá-las. Juro que acordei logo em seguida sem motivo algum, corri pro violão e estava certo aquilo que eu tinha sonhado. Há alguns anos, me assombravam sonhos em que eu sempre me via nas ferragens retorcidas de um carro no instante seguinte do acidente. Esse então eu sonhei muitas vezes, um assombro terrível.
Me acalma sonhar que eu estou lá na serra da Mantiqueira, na varanda lá de casa assistindo a tarde. Me acalma sonhar com crianças correndo ao meu redor fazendo bagunça. Me acalma sonhar com uma pessoa amada, da família, dos amigos, que um dia eu vou conhecer pra amar ou dos que já se foram e ainda são amados. E, ao mesmo tempo em que me estimula hiperatividade, também me acalma sonhar com o palco, com a música, seja qual for. Seja a minha banda, seja com meus companheiros de Cia, seja eu só com meu violão e a voz que me foi vestida quando vim ao mundo.
Eu creio nas mensagens dos sonhos, sem ser paranóico. Em certos momentos os sonhos te ajudam, outros eles te avisam e outros servem apenas para entreter um sono tranqüilo, ou um momento de desconexão do mundo (se estiver sonhando acordado). O sonho é o espaço livre de cada um, para ser o que quiser e fazer o que quiser. É por vezes a voz do anjo da guarda. Um instante de descobertas quando não há mais nada lhe impedindo de descobrir.
O sonho funciona como uma TV particular e independente, que sintoniza-se quando bem entende e transmite programações variadas do próprio subconsciente.
Querem um bom conselho? Sonhem!
segunda-feira, 5 de abril de 2010
A Escada - Allyson Alves
Essa escada que nunca termina.
Nunca chego lá em cima.
Essa escada é irregular,
Tem vãos e degraus altos pra pular.
Essa escada sobe e não dá pra voltar.
Todo dia uma das pernas se põe a forçar,
O piso às vezes quebra ,
E as pedras soltas escorregam.
Eu regrido dois ou três degraus.
Amanhã me ponho a escalar
E venço o dobro, e uma hora,
Dobro essa escada...
O topo não deve estar longe...
Pra mim que não desisto.
Nunca chego lá em cima.
Essa escada é irregular,
Tem vãos e degraus altos pra pular.
Essa escada sobe e não dá pra voltar.
Todo dia uma das pernas se põe a forçar,
O piso às vezes quebra ,
E as pedras soltas escorregam.
Eu regrido dois ou três degraus.
Amanhã me ponho a escalar
E venço o dobro, e uma hora,
Dobro essa escada...
O topo não deve estar longe...
Pra mim que não desisto.
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